Protestos e confronto marcaram chegada do petista a Bagé. Mais tarde, comitiva comemorou ato político ao lado dos ex-presidentes Pepe Mujica, do Uruguai, e Rafael Correa, do Equador –

No ponto de partida de uma caravana de cinco dias pelo interior do Rio Grande do Sul, nesta segunda-feira (19), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentou a animosidade de manifestantes em Bagé, na Campanha, e o apoio de líderes da esquerda latina em Santana do Livramento, na Fronteira Oeste. Ao fim, diante de militantes, reforçou a intenção de concorrer à Presidência em 2018, mesmo com o risco de ser preso.

Lula desembarcou em Bagé pela manhã, em um voo particular vindo de São Paulo. No aeroporto da cidade, foi recebido por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seguiu para a Universidade Federal do Pampa, onde cumpriria a primeira agenda no Estado. Em frente ao campus, empresários e ruralistas da cidade organizaram um protesto, em cima de tratores e montados em cavalos.

Carlos Macedo / Agencia RBS
Houve tumulto durante a passagem da caravana por Bagé, nesta segunda-feira (19)Carlos Macedo / Agencia RBS

Os ônibus da caravana lulista foram recebidos com arremessos de pedras e pedaços de madeira. Sem qualquer isolamento físico pela Brigada Militar (BM), outro grupo do MST que estava no local se aproximou. Assim, armou-se um confronto com trocas de agressões e xingamentos – três policiais à paisana do setor de inteligência da BM chegaram a sacar armas. Não houve disparos.

Apoiada pelo Batalhão de Operações Especiais (BOE), a BM controlou o distúrbio. Porém, durante toda a manhã, o clima de animosidade persistiu.

Ruralistas ameaçavam avançar com os tratores e, em um guindaste, ergueram um boneco inflável do ex-presidente vestido como presidiário. Já representantes do MST recolhiam pedras e respondiam às ameaças. Duas pessoas foram presas e apresentadas à Polícia Civil – um manifestante de cada lado do conflito.

Diante do cenário, a caravana teve de mudar o roteiro original. Lula discursaria em um carro de som maior, mas acabou falando sobre um veículo menor para evitar a vulnerabilidade. Em um rápido pronunciamento, de oito minutos, sobrou tempo para lamentar o que viu.

Confesso que saio triste daqui. Essas pessoas deveriam ter vindo protestar quando estávamos inaugurando essa universidade. Não me preocupo com quem está protestando. Amanhã, estarão batendo palmas em sinal de aprovação ao governo que faremos nesse país — disse.

Mais tarde, o presidente estadual do PT, Pepe Vargas, criticou a atuação da BM. Segundo o deputado, houve alerta para que os espaços dos manifestantes fossem delimitados. O comandante do 6º Regimento de Polícia Montada de Bagé, tenente-coronel Sérgio Laydner Alex Medina, disse que o confronto ocorreu devido ao desrespeito às combinações dos grupos.

— Os ruralistas firmaram um acordo, mas algumas dessas pessoas saíram correndo ao encontro da comitiva. Efetivamente, foram lançadas pedras contra o ônibus e houve um corre-corre até que conseguíssemos restabelecer a segurança para a comitiva. Houve confronto dos dois lados, os ânimos ficaram extremamente exaltados por alguns integrantes com pensamento mais belicoso — disse Medina.

Depois de passagem conturbada pela Campanha, Lula seguiu, de ônibus, para Santana do Livramento, na Fronteira Oeste. Na cidade fronteiriça com o Uruguai, encontrou um clima mais amistoso e discursou em um palco montado na Praça Internacional, ao lado de Pepe Mujica, ex-presidente do país vizinho. Em uma referência aos seus críticos, que denunciam que Lula pode deixar o Brasil para escapar de uma iminente prisão, rebateu:

— Passei ali na fronteira e poderia ter dado um pulo no Uruguai. Mas não dou. Sabem por quê? Porque, mais dias ou menos dias, quem vai sair do país são os meus acusadores de hoje. Eles que inventaram mentiras a meu respeito. A PF (Polícia Federal), o Ministério público, o juiz (Sergio Moro) — declarou.

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Lula ao lado do ex-presidente do Uruguai Pepe MujicaCarlos Macedo / Agencia RBS

No evento público, que levou centenas de apoiadores à principal praça da cidade, Lula reafirmou sua intenção de concorrer à Presidência da República em 2018. Disse que quer provar aos brasileiros que “eles” estão mentindo e que há o “dedo do governo americano em tudo o que está acontecendo no país”.

— Se o meu partido quiser, eu vou ser candidato a presidente da República. E, se for candidato, é muito provável que a gente ganhe as eleições no Brasil, porque o povo brasileiro sabe quem sabe cuidar dele. Eu não quero governar o Brasil. Eu quero cuidar do povo trabalhador e do povo pobre do meu país — emendou o ex-presidente.

Um dos momentos mais aguardados pelo PT na caravana, o ato político passou por um imprevisto. A energia elétrica caiu na região, e, com as caixas de som desligadas, o evento precisou ser interrompido durante a fala do uruguaio. Depois de cerca de 15 minutos, a energia retornou e os discursos prosseguiram.

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Lula cumpre agenda de cinco dias no EstadoCarlos Macedo / Agencia RBS

Mujica denunciou o que chamou de uma “mudança muito forte na América Latina nos últimos anos”: a ascensão da preocupação econômica ao invés da social. Para o líder uruguaio, a esquerda precisa se unir:

— Não somos nada se não nos juntarmos na América Latina. Eles nos querem pulverizados e divididos. Nós precisamos entender nossas diferenças e termos políticas comuns.

Rafael Correa, ex-presidente do Equador, e Dilma Rousseff também participaram do ato. A caravana do ex-presidente segue, na terça-feira (20), para Santa Maria, na Região Central, onde o petista se encontra com reitores e diretores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e realiza mais um ato político.

A passagem do petista já repercute na cidade. No mesmo dia da visita, a Câmara de Vereadores pode votar uma moção de repúdio, protocolado por parlamentares do PSDB, do PP, do PDT e do PMDB, à caravana.

DÉBORA ELY – Zero Hora

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